Demorei a vim aqui, e expressar um pouco do que venho pesquisando, observando e vivenciando no meu dia-a-dia. Não sei o motivo, talvez me falte palavras, talvez estomago, realmente não sei. E então, eu resolvi escrever, depois de ter visto mais um caso de tantos, no facebook..
Outro dia, estava indo para a academia, e infelizmente, tive que passar por um lugar, onde tinha um grupo de “homens” parados. Karen, por que infelizmente? Eu respondo, pelo motivo de ter peitos! Mas, voltando a minha estória. Bem, eu tive que passar por lá e escutar coisas não agradáveis ao meu ouvido. Não comentei com ninguém sobre isso, porque, no final o que eu ia escutar, em grande maioria, era: “O que você estava vestindo?” “Você não deveria se sentir ofendida!” “Ah, é assim mesmo, deixa para lá” Então, por qual motivo falar, não é mesmo?! ERRADO! Nós temos que falar, que gritar se necessário, já nos calamos demais. Eu percebi nesse dia, que andamos com medo. Graças a Deus, e agradeço a Ele todos os dias, eu nunca passei por algo que fosse traumático para mim, como mulher, como pessoa, por ter peitos. Agradeço também, não ter um pai, tio, irmão, primo, ou qualquer variação, que de alguma maneira, tivesse me traumatizado, agradeço pela família maravilhosa que tenho, e não ter sofrido nenhum tipo de abuso, seja verbal, físico ou mental, agradeço a tudo isso. Mas, mesmo assim, não posso deixar de ter medo. Não posso deixar de estremecer, quando tenho que passar sozinha por um grupo de “homens”, não posso deixar de temer a cada “gostosa”, “ que isso”, ou derivados que escuto na rua. Não posso deixar de me sentir insegura de ir a qualquer lugar, independente de horário ou de quão perto esse lugar é da minha casa. Novamente, fugi do assunto, mas, é difícil manter o foco, meus dedos criam vida própria e eu os deixo ir… Até porque, não é um grande depoimento, está mais para um grande desabafo.
Hoje, tenho 22 anos recém completados, e não é qualquer coisa que me abala. Tenho consciência do que sou, do que eu quero para mim, do que quero para o meu corpo. Mas, fico pensando na Karen de alguns anos atrás. No que um “Nossa, se eu tivesse dinheiro!” ou um “Nossa, que gostosa!”, que escutei em algum momento da semana passada, traria para a Karen de, não sei, 15 anos? Ou de 12? Eu realmente fiquei pensando nisso. Na Karen de 12 anos, eu não pensei a fundo, eu era realmente uma criança que andava de vestido rodado por ai, carregando sempre uma boneca e com um tênis da Hello Kitty que piscava, não consigo imaginar. Mas,na Karen de 15 anos, traria mais vergonha do que tive na época; 15 anos foi a idade do inferno para mim. Eu comecei a desenvolver, criar peito, ganhar cintura, e vestidos rodados já não davam mais em mim. Foi um inferno, eu me acostumar com isso. Detestava roupa curta, decote? Nem pensar. No resumo, eu tinha vergonha. Mas, a Karen de 15 anos cresceu e aprendeu a não se importa, embora, a Karen com seus 22 anos recém recebidos, ainda se incomoda com olhares e “cantadas baratas”, ela já não liga tanto para que os outros em seu redor. Ela percebeu que não importa se ela esteja de shortinho ou de calça, eles vão falar de qualquer jeito.
Como já relatado, eu demorei para desenvolver, mas, há meninas de 11, 12, 13 anos que se desenvolvem cedo demais, e passam pelas mesmas coisas que eu, com 22, passo. E fiquei pensando, em como elas lidam com isso, o como esses abusos verbais, sim, é um abuso, afetam o jeito como elas vão crescer e enxergar o mundo?! Em uma sociedade, onde estão “adultolizando” as crianças cada dia mais cedo, onde uma criança de 12 anos, ou até menos, já é vista como mulher, em uma sociedade que cultiva que quando se é “homem”, você pode tudo. E não venham me falar que não, porque está ai, só não enxerga quem não quer. E eu não consigo imaginar. São meninas que vão crescer sem realmente saber o valor que elas tem, ou o valor que elas devem ter por elas. Serão mulheres que acreditaram que a culpa do abuso é delas, são mulheres que vão se esconder atrás de roupas largas ou atitudes (falsas)auto-confiantes. E não consegui me colocar no lugar delas.Talvez se tornem mulheres que acham que merecem todo e qualquer tipo de abuso, ou que vão se esconder por trás de uma certa frieza.
Por fim, eu queria acreditar que, em um dia, nem que seja para uma sobrinha que possa ter, ou uma filha, possamos viver em uma sociedade em que elas não precisem andar com medo. Que elas não fiquem olhando para os lados, pensando que a qualquer momento pode vim alguém e tirar a vontade e o direito sobre o seus corpos. Que ao passar por um grupo de “homens”, elas possam passar de cabeça erguida, sem se preocupar se seu short é curto demais, ou se está vestindo uma blusa muito decotada. Que elas possam andar, sem que alguns “homens”, homens entre aspas, porque, eu não considero homem aquele que tira o direito de outra pessoa sobre o corpo/mente de outra pessoa, achem que elas estão pedindo. Talvez, seja sonhar demais, seja utópico demais, mas, não posso deixar de sonhar com isso. Seria entregar a guerra, sem ao menos ter lutado. Talvez, esse texto não chegue a ninguém, mas, se chegar a uma pessoa sequer, eu peço, em nome do futuro, não se cale, não esconda, e NUNCA se sinta culpada, porque, você é a vítima, e não ao contrário. E se esse texto, ajudar a uma pessoa, eu já vou me sentir bem.
Fico por aqui, beijos Ka :)